Destaques
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
VIII - SUBMISSÃO
Dentro da jaula, a presença de zúri suscitara nos leões sensações há muito tempo esquecidas. Acostumados a serem servidos e cuidados pelos funcionários do zoo, eles se acomodaram à vida de celebridade animal e amoleceram seus instintos. De repente, começaram a perceber em suas narinas cheiros semelhantes a rios, mata, terra, bicho, sangue. Conforme zúri ali permanecia, mais seu faro primitivo ia sendo despertado. Mais tinham falta de uma natureza já esquecida. Mais se sentiam leões.
Desde a chegada dos três filhotes (dois machos e uma fêmea), a população da jaula aumentara consideravelmente. Eles se juntaram ao leão de juba preta (seu pai), ao de juba vermelha, e às três leoas, sendo uma delas amina (a mãe); e claro, à zúri, mamífera como eles. Os três pequenos eram a alegria daquele lugar. Pareciam gatinhos inocentes que nem se davam conta de que eram famosos do outro lado das grades. Os leõezinhos brincavam de morder o rabo da mãe, disputavam o colo de zúri, jogavam água um no outro quando iam ao bebedouro e se enrolavam na juba negra do pai. O leão de juba vermelha, entretanto, assistia a tudo aquilo à parte.
Fora da jaula, a grande repercussão midiática da mulher presa com os leões movimentou um hábito primitivo de roupagem moderna: as apostas online. A grande questão debatida era sobre como aquele evento terminaria. As opções consideradas envolviam desfechos onde a mulher e os leões saíam vivos ou mortos. A partir daí, toda sorte de combinações existia.
Nos primeiros dias de zúri na jaula, a maior parte dos apostadores acreditava que ela e os leões seriam resgatados vivos, crendo que a polícia local e os veterinários contornariam rapidamente a situação. Conforme a mulher teimava em sair e os leões se mostravam resistentes às altas doses de tranquilizantes, consideraram que algum dos animais viesse a se ferir e até a perder a vida enquanto ela fosse resgatada. Mas quando zúri externou que estava ali para uma espécie de revolução, os jogadores se inclinaram para uma solução onde ela poderia também não ter um final feliz, visto que o governador do amazonas virava uma fera ao ouvir falar de revolucionários, os do passado e os do presente.
Quando ofereceram a francisco um ano de seu salário como funcionário do zoo para garantir que a mulher saísse viva daquele lugar, ele não fez cara de indeciso, nem disse que conversaria com sua esposa primeiro — aceitou na hora. Porém, quando outros apostadores o procuraram propondo o dobro do valor, ele viu o poder que tinha nas mãos, e passou a falar que estava analisando as opções. Em sua mesa de ofertas, ora a mulher vivia, ora a mulher morria, ora os leões encaravam destinos diversos. Cada dia de zúri na jaula era um dia em que francisco recebia novas propostas e aguardava pelo melhor negócio. Até que em certa data, ele se considerou satisfeito.
A noite em um zoológico é cercada por uma aura lúgubre, cheia de uivos e olhos noturnos. Mesmo naquela jaula dos leões tão disputada, a escuridão afastava até os jornalistas mais aguerridos. Isso porque poucos confiavam nos cadeados e trancas enquanto o sol dormia. Foi nesse ambiente que francisco decidiu agir. Leu novamente o papel que estava no seu bolso: a louca vive, leões adultos vivem, leõezinhos se juntam a mufasa. Bastava disparar a arma com os tranquilizantes e acertá-los. Com uma dosagem para adultos, seus coraçõezinhos parariam em poucos minutos. Francisco avistou os filhotes próximos ao pequeno lago dentro da jaula que lhes servia também de bebedouro; e do lado de fora, por entre as grades, mirou.
Desde o dia em que os três leõezinhos nasceram, o leão de juba vermelha buscava sem sucesso participar daquela nova alegria da jaula. Ele via zúri os segurando no colo e se impressionava com o afeto que ela lhes dava, e que, todavia, não achava dentro de si. Não compreendia; sempre se dera bem com seus companheiros nos muitos anos ali trancados. Agora, via-se incapaz de sentir qualquer afeição ou desejo de bem àquelas três criaturinhas. Estava cada dia mais irritadiço e sensível. Andava para lá e para cá como se não houvesse espaço suficiente para ele na jaula. Quando se cansava, isolava-se dos outros e observava.
Em uma noite, o leão de juba vermelha soube definir o seu incômodo: não suportava ver filhotes de outro macho rondando o mesmo espaço que o seu. Logo, esses pequenos cresceriam, e então, seriam quatro leões de pelagem negra contra um ruivo. Seu instinto recém revigorado o incitava a agir. Atacar era tão inevitável quanto a necessidade de comer. Viu os três leõezinhos irem juntos tomar água. As fêmeas dormiam do lado oposto. O pai de juba negra estava acordado, porém, distraído. Olhava atônito para a lua do lado de fora das grades, hábito que passou a ter todas as noites desde que zúri ali se alojou.
Enquanto os três pescocinhos ainda estavam inclinados sobre o lago, o leão de juba escarlate se aproximou calmamente. Então, acelerou o passo e abocanhou um dos filhotes pelas costelas, enquanto punha as patas duras sobre a coluna cheia de ossos moles do outro. Imina, a leoazinha que zúri tomara nos braços ao nascer, conseguiu correr. Quando se desfez da primeira mordida, o agressor puxou o outro filhote até sua boca e o atingiu na cabeça com todos os seus dentes, os caninos e os leoninos. Com a pelagem dourada manchada de sangue, os irmãos tentaram fugir, mas confusos, acabaram se lançando para dentro da água que até há pouco matava sua sede. O leão ruivo então pulou para o pequeno lago, e desferiu golpes sobre a lâmina d’água, esmagando repetidas vezes os dois filhos de amina. Tamanha foi sua voracidade que quando se cansou, olhou para baixo e só viu lama da cor de sua juba. Não se dera conta que imina escapara, e logo voltou para seu lugar de repouso deixando pegadas vermelhas pelo caminho.
A pequena leoa se apressava para chegar até as fêmeas, que despertaram não pelos gritos dos que sucumbiram, mas pelo frágil rugido da que se aproximava. Quem a viu primeiro foi amina, a mãe. Contudo, zúri, que se deitava próxima, ao ver a leoazinha assustada, se antecipou e a tomou no colo. Perguntava como quem esperasse uma resposta o que tinha acontecido. A pequena só conseguia esconder o rosto sobre o peito da mulher, tremendo muito. Zúri permanecia abraçada à filhote, buscando aquecê-la. A mãe se angustiava pois não conseguia enxergar a filha no colo de zúri sobre suas quatro patas. A mulher então percebeu que imina parou de se sacudir. Todavia, quando buscou seu rosto, a cabeça da leoazinha tombou para um lado. Zúri a balançava, mas imina não mostrava reação. Foi quando a mãe abocanhou a própria filha dos braços de zúri e a trouxe para o chão. Cheirou-a insistentemente e logo achou um dos dardos de francisco fincados em sua coxa direita. A dose do tranquilizante fora alta demais para seu corpinho. Imina, assim como seus irmãos, perdera a vida naquela noite.
A leoa mãe, vendo sua filha estirada, ainda sem saber do massacre do leão vermelho no bebedouro, sentiu crescer dentro de si um amargo rugido. Porém, ele não saía para a boca — se prendia em sua garganta e voltava para os pulmões, sufocando-a. Ela começou então a tossir para tirar aquele som que lhe afogava e a impedia de correr para procurar seus outros filhos. Zúri, percebendo sua agonia, se inclinou e colocou a cabeça da leoa sobre seu peito. Entretanto, amina recusou seu consolo. Olhou para zúri ainda vestida com aquele uniforme rosa e sentiu asco. Leões não usam roupas. Apenas humanos, como o que disparara a seta envenenada sobre sua filha.
Amina então avançou sobre zúri para tirar-lhe aquela veste incômoda. Rasgou sua blusa com as unhas, arranhando seus braços e deixando seus seios à mostra. Zúri, assustada, pensou que a leoa enlutada a quisesse ferir. Temendo por si, deu ordem às outras duas leoas que assistiam ao lado para que tirassem amina de cima dela — e elas a obedeceram. Afastaram a agressora e permaneceram exatamente na frente de zúri, fazendo uma barreira com seus corpos. Amina, naquela noite, conheceu o poder de zúri; sentiu todo o peso de sua presença. Acuada, enfim, rugiu tudo o que estava preso. Porém, seu som foi abafado por um outro rugido ainda mais horrível que viera do bebedouro.
Gilvan Gomes
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos

Comentários
Postar um comentário