XIII - MWANZO MPYA
“Mamãe, posso ir do outro lado do zoológico? Quero ouvir o sacerdote”
Nia andava com os dois filhos onde um dia fora um lugar somente de tortura e prisão. Em teoria ainda era um zoológico, mas diferente. As jaulas, em números bem reduzidos, se mesclavam a paisagem da savana. Em vez dos maus tratos era um local de aprendizado. Ainda assim persistia nela o temor de uma nova revolta dos animais enjaulados. Um rugido soou ao longe arrepiando todos os pelos do seu corpo. Mas respondeu:
“Pode sim, querido. Nós também vamos acompanhar a cerimônia. Vá na frente, mas não chegue muito perto das grades”
O pequeno saiu em disparada enquanto dizia:
“Baraka mama” Bença, mamãe
“Imani akubariki, Mwanangu” Imani te abençoe, meu filho
Somente a irmãzinha continuou a caminhar ao lado de nia. Seu rostinho estava sério quando perguntou:
“Como era o mundo antes do Mwanzo Mpya?”
“Minha filha, isso foi muito antes de você nascer, a terra já deu muitas voltas em torno do sol desde aquele dia. E eu não gosto de lembrar”
“Mas eu quero saber! Como era tudo antes do novo começo?”
Sabendo que sua prole jamais renunciava a uma pergunta, suspirou:
“Era horrível! Os homens que governavam destruíam tudo. Não respeitavam o povo sagrado, o nosso povo. A natureza estava acabando, incêndios, desastres, guerras. Matavam aos seus próprios e aos outros. Não acreditavam em imani, adoravam o deus do dinheiro, e em nome dele consagravam tudo. Separavam famílias...”
Olhou distante como quem conta uma lembrança dolorosa. Continuou:
“Leões tinham seus filhotes roubados e levados para muito longe. Os homens que governavam achavam divertido, cobravam por isso. Açoitavam os outros animais. Arrancavam suas peles e as vestiam. E quando não havia mais nada a fazer, presos e enjaulados os verdadeiros reis da terra ainda tinham seus destinos decididos em apostas”
A pequena estava imóvel. Questionou:
“E então a profecia se cumpriu?”
“Sim. Aconteceu o Mwanzo Mpya. A natureza deu aos homens uma resposta”
Disse nia, retomando o trajeto na alameda ladeada de algumas estruturas com grades.
“É verdade que imani rugiu pelo céu e toda a terra tremeu? Eu ouvi dizer que isso é mentira. Que imani nem existe, é baboseira de kuhani, de sacerdote”
A mãe respondeu com bondade:
“Rugiu sim, não dê bola para negacionistas. Rugiu, e o brado foi ouvido por todo o planeta. Em cada canto o povo sagrado se ergueu e a canção dos leões foi entoada. Agora, conduzimos o mundo em harmonia”
“Então porque ainda existem jaulas?”
Quis saber a pequena, ouvindo o urros que vinham de dentro das estruturas de metal
“Hoje os zoológicos são lugares sagrados. De conhecimento e redenção. Só os animais que ainda não despertaram sua consciência permanecem presos. E apenas para a nossa segurança. São tratados com respeito enquanto ainda não adquirem a sabedoria necessária para o convívio pacífico. Sofreram muito, antes do grande domínio, e ainda refletem esses horrores nos comportamentos. Os homens que governavam lhes fizeram um grande mal”
A filha agora olhava para o pequeno aro adornado que pendia da corrente presa ao pescoço de nia.
“E esse amuleto, porque vocês o carregam?”
“Esse é o Anel de Nala. A aliança usada por todos os sacerdotes kuhani. Simboliza a mudança, a transformação, a nova ordem. É a unidade entre os kuhani”.
Disse, olhando para a filha. Assim como nala, nia também tinha os olhos felinos. Continuou:
“nanam khai, zuri e os outros também os usam”
As duas já se aproximavam do local dos ritos.
“Eu não entendo, mãe, zuri não vivia entre os homens que governavam?”
“Zuri sempre foi uma de nós”
A multidão se amontoava, fazendo grande burburinho
“E como você virou uma sacerdote?”
Perguntou mais uma vez a pequena, se encostando distraidamente nas barras de metal dispostas ao longo do caminho. Fez-se silêncio e a reposta veio em um tom pesaroso:
“Eu também estava dentro da jaula quando o grande portal foi aberto”
Então o grito do homem do outro lado da grade interrompeu a conversa. As mãos daquele que outrora foi o dono do zoológico sacudindo os ferros, na tentativa improvável de resgatar alguma autoridade que um dia tivera. Nia, a leoa, rugiu de volta alertando a filhote:
“Eu avisei para não chegar perto. Os homens ainda são muito perigosos!”
Os pelos do seu corpo novamente se eriçando, mas desta vez de raiva. Pegou a leoazinha pelo cangote e foi se juntar aos outros.
“E agora silencio, asin vai começar”
Alertou enquanto observava o leão da juba preta se posicionar no centro do grande circulo, tendo zuri e amina ao seu lado.
Camila dos Santos Vicente

Comentários
Postar um comentário