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V - Nanan Khay
Depois de muitos dias de viagem, atraca no porto de Manaus o navio Baraka vindo do porto de Nacala. O porto de Manaus, situado na confluência dos rios Negro e Solimões, é um ponto estratégico para o comércio da região amazônica.
Tão logo a sirene é acionada anunciando a chegada da embarcação e já com a devida autorização para atracar, as amarras são lançadas e os marinheiros se organizam para garantir que tudo esteja seguro.
Nanan surge no alto da proa, admirando a cidade a seus pés. Com o sol refletido nas águas do rio, a cena é um verdadeiro espetáculo.
Trêmulo, sôfrego, desesperado para ganhar a rua e andar pelo mercado ribeirinho que aflora no entorno do porto, o velho nativo africano desce a rampa de desembarque apressadamente, a fim de pedir informações sobre a localização do zoológico. Dispensa a companhia de quem quer que seja. Ele sabe que é amparado pelo deus Mulungu.
Nanan Khay é um homem respeitado em sua comunidade, a província de Tete. Moçambique. Pertencente ao núcleo dos anciãos de sua tribo, é também Shaman, um líder místico capaz de se comunicar com os espíritos ancestrais. E a sua última e mais importante missão é encontrar aquela que povoa a sua mente e que, por anos a fio, nunca mais vira.
Sem postergar mais um minuto, o ancião caminha resoluto pelas ruelas, atravessa becos e parques e alcança o aclive que leva ao único e gigantesco zoológico da cidade.
Pele negra reluzente e suada, Nanan afasta o kanzu, um manto longo que porta com um certo garbo, vestimenta símbolo da realeza suaíli. Caminha devagar, bufando debaixo do sol dos trópicos.
“Quando não souberes para onde ir, olha para trás e saiba pelo menos de onde vens” cita ele, de si para si, um provérbio antigo.
Não dá ouvidos a ninguém, haja vista que muitos o impedem de adentrar pelos portões do parque. Seu olhar procura por uma imagem que viu num jornal local de Tete: uma mulher dentro da jaula dos leões. Esta imagem não sai de sua mente.
A gritaria e o clamor da multidão contida pelos policiais e agentes do zoo deixam-no aturdido, mas o seu alvo está prestes a ser atingido. Vai vencendo cada obstáculo, dando murros aqui e ali até que, finalmente, vislumbra a jaula à sua frente. Primeiro, enxerga os leões e, depois, a mulher, recostada em uma parede lateral, cantarolando uma moda antiga e massageando a barriga entumecida da leoa.
“Nyota Njeema huonekana asubuhi” – uma linda estrela é vista de manhã.
Nanan não consegue conter a emoção e grita: “Nala!!! ”
A mulher, de um salto, consegue se lançar para o outro lado da jaula, os animais se perfilam em posição de ataque e a leoa dá um grunhido anunciando o parto iminente.
O velho trincando os dentes para conter o choro, olha para a mulher, estende as mãos e exclama novamente: “Nala”
“Não, sou Zuri! Nala morreu” diz a mulher estremecida.
“Você é a cópia dela!” O velho redarguiu, sentando na terra vermelha, com as pernas cruzadas como fazia nas assembleias tribais. “E você encontrou Amina, a leoa ?”
Eles falam na língua nativa suaíli.
A surpresa da mulher com esta visita só é superada pela enorme tristeza que se abate sobre Nanan. Em sinal de reverência e respeito à notícia da morte de Nala, ele retira o kofia, pequeno chapéu arredondado, tocando com sua mão magra e descarnada seu cabelo embranquecido.
Num longo espaço de tempo, todos se calam menos a leoa que geme, cada vez mais amiúde.
Na cabeça de Zuri, tudo volta a ser real, novamente. Sua tela mental vagueia pelo espaço fluido, ela se vê menina, na floresta, com os leões filhotes, a brincar em torno de algumas casas antigas feitas de pau a pique e telhado de palha. Lembra-se de sua mãe na azáfama da colheita ou nos dias de tempestade inclemente.
O velho, recomposto dos últimos acontecimentos, começa a falar, sem preâmbulo:
“Sua mãe foi uma mlozi, a maga da comunidade, realizava muitos rituais, dentro da cultura bantu, oriundos das tradições orais passadas de geração em geração. E lançava como ninguém piga ramli, conchas para prever o futuro.
“Quando você nasceu, Nala colocou-a no regaço de Amina a fim de minorar a tristeza da leoa após ter perdido seus três filhotes para os caçadores da savana.
“Nala nada receou pois você foi gerada na confluência da lua cheia, onde todo o poder de um mago é pleno, extensivo à sua prole. Assim, você foi criada no meio da alcatéia”.
Zuri ouvia a narrativa como se bebesse sofregamente cada palavra do velho.
E continua ele a falar, mas não mais se importando se a mulher à sua frente entende ou não. Fala para aliviar a sua alma.
“Nala vaticinou que iria morrer cedo e longe da nossa aldeia.
“Foi quando realizou o ritual da Proteção e Benção com você e a leoa Amina. Pela nossa tradição suaíli, as crianças são submetidas a essas práticas para garantir que estejam protegidas contra maus espíritos e doenças. Isso envolve o uso de amuletos e tatuagens. A sua, que representa um rabo com penacho na ponta, significa que você foi ‘colada’ à leoa e uma seria o respaldo da outra. Nunca iriam se separar”.
Nanan é interrompido pelo alvoroço dos animais na jaula como a se prepararem para um acontecimento. Os tratadores de animais observando de fora a enorme alaúza feita pelos leões, deduzem que Amina está prestes a dar à luz. Seus olhos brilham vislumbrando o lucro que terão com a venda dos filhotes.
A leoa urra, a mulher boquiaberta arregala os olhos e o primeiro filhote é jogado na palha da jaula, todo brilhante pelo fluido transparente que o envolveu durante a gestação. Segue-se assim com os outros dois leõezinhos, que nascem na sequência.
Amina demonstrando muito cansaço, reuni os bebês numa espécie de alcova para aquecê-los. Limpa e lambe os filhotes quando, repentinamente, pega com a boca o menor deles, segura-o pelo pescoço e vai depositá-lo no colo de Zuri.
O velho observando a cena, aturdido e incrédulo, exclama:
“Como sua mãe fez!”
Zuri segura o bebê leão em seu colo com olhar sereno e protetor. Pela primeira vez dentro da jaula, seu rosto exibe uma expressão de regozijo, de alegria mesmo. A conexão com o filhote é admirável. Como se o tempo ao redor tivesse parado.
Mas Nanan dá o golpe final, quebrando o encantamento quase materno que se formou no local:
“E foi então que a leoa sumiu. Descobriu-se que havia sido levada pelos mercadores inescrupulosos, para ser vendida nos mercados externos.
“Nala enlouqueceu. Consultou os anciãos e decidiu que iria reaver a leoa a qualquer custo. E exatamente neste ínterim, surgiu um homem branco, vindo ninguém sabe de onde, prometendo levá-la aos caçadores de leões”.
“Sua mãe então arrumou uma trouxa de roupas para ela e outra para você e deixou a aldeia numa manhã da estação seca, num dia empoeirado e muito quente.
“Depois desse dia, que foi o mais terrível da minha existência, não tive mais notícias dela. Nem de você”.
Zuri estava atônita: “Este homem branco foi o que nos trouxe para cá. Eu era pequena mas posso lembrar da viagem fatigante. Sempre pensei que este homem fosse meu pai!”
Já faz muito tempo que estão a conversar. Ela dentro da jaula rodeada de leões e filhotes de leões. Ele no lado de fora, agachado quase inerte, ofegante por vezes, pensando em como sua vida se transformou numa aventura sem final definido.
O dia já ia em meio quando alguém oferece água para Nanan e frutas. Ele aceita de bom grado. Havia se acalmado e tudo que dissera e presenciara trouxe-lhe uma grande paz.
“E agora, o que será agora?” indaga o ancião à Zuri.
“Milima haikutani,binadamu,hukutana” – as montanhas não se encontram, mas as pessoas se encontram, responde Zuri
Nanan mesmo sabendo ser inútil, convida Zuri para voltar à aldeia nativa com ele.
“Ndege wa mbawa moja huruka pamoja” – pássaros da mesma pena voam juntos mas a pressa não traz bênçãos – finaliza a mulher
Maria Elcira Peretto
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