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Destaques

XIII - MWANZO MPYA

“Mamãe, posso ir do outro lado do zoológico? Quero ouvir o sacerdote” Nia andava com os dois filhos onde um dia fora um lugar somente de tortura e prisão. Em teoria ainda era um zoológico, mas diferente. As jaulas, em números bem reduzidos, se mesclavam a paisagem da savana. Em vez dos maus tratos era um local de aprendizado. Ainda assim persistia nela o temor de uma nova revolta dos animais enjaulados. Um rugido soou ao longe arrepiando todos os pelos do seu corpo. Mas respondeu: “Pode sim, querido. Nós também vamos acompanhar a cerimônia. Vá na frente, mas não chegue muito perto das grades” O pequeno saiu em disparada enquanto dizia:  “Baraka mama” Bença, mamãe  “Imani akubariki, Mwanangu” Imani te abençoe, meu filho Somente a irmãzinha continuou a caminhar ao lado de nia. Seu rostinho estava sério quando perguntou: “Como era o mundo antes do Mwanzo Mpya?” “Minha filha, isso foi muito antes de você nascer, a terra já deu muitas voltas em torno do sol desde aquele dia. E eu n...

VI - O zoológico



Zuri finge que dorme no começo da noite. O psiquiatra espera, próximo, que ela acorde para retomar a sessão. Nanan khay conversa com os espíritos ancestrais buscando formas de convencê-la a voltar para casa, e a repórter noticia a manchete que definirá toda sua carreira jornalística.

“Mulher leão chamada zuri permanece em jaula após sessão de terapia e conversa com homem misterioso.”

Aproveitando-se da reportagem, o dono do zoológico (em uma parceria lucrativa com o delegado e o editor chefe) faz algumas ligações e reabre o negócio, isolando as jaulas dos leões e assegurando a segurança dos visitantes. Seguidas de fotos de zuri, placas anunciam por todo canto:

“Reabertura de todo o zoológico, exceto pelas jaulas dos leões, onde se encontra uma mulher ainda viva. Favor não se aproximar das faixas amarelas.”

O jornal anuncia a manchete e a audiência bate a casa dos milhares, esgotando as passagens para manaus. Funcionários contratados de última hora cobram as taxas de entrada do zoológico, e os visitantes correm para as atrações mais próximas às faixas amarelas, curiosos para ver a mulher viva na jaula do leão em primeira mão. A polícia impede que mal intencionados atravessem as faixas.

O cinegrafista captura imagens impactantes: a pelagem da leoa amina conforta a mulher, e a pele de ébano da mulher conforta o filhote de leão, que descansa com um sorriso felino no rosto. A harmonia conquista ambientalistas. Eles aproveitam para protestar nos arredores do zoológico pela libertação dos animais enclausurados.

“Imani” diz zuri, que abre os olhos e vê a filhote. Uma mulher, tal como ela, tal como amina, tal como nala. As outras leoas aninham-se com o restante dos filhotes.

A repórter diz à audiência:

“Por quanto tempo ela permanecerá? O que acontecerá quando sair? O que significa ‘imani’?”

“Não atrapalhe o sonho de amina”, retruca nanan khay.

“Não atrapalhe o serviço alheio”, retruca o psiquiatra.

Ruge um dos leões, alertando para manterem o tom baixo.

“Qual sua relação com a mulher na jaula?”, pergunta a repórter ao velho africano.

“Elimu bila Amali ni kama nta bila asali” - Conhecimento sem boas ações é como uma colméia sem mel, responde nanan. O velho fecha os olhos e vira-se ignorando a repórter.

“E o senhor, tem algo a dizer sobre toda situação?”, a câmera do cinegrafista volta-se ao psiquiatra.

“A mulher se vê como parte dos leões, devido aos traumas familiares. Ela sente que os humanos não a enxergam, apenas os animais”, responde o servidor público.

“Ela não se vê como parte dos leões. Os leões são parte de nosso povo. Não há trauma além da separação de zuri e amina”, discorda o velho.

“A inconstância do pai e a morte da mãe a abalou”, aponta o psiquiatra.

“Mas não mais do que separar-se de seu vínculo”, insiste o velho.

“E sobre ela ter entrado na jaula, qual a causa?”, intervém a repórter.

“Ela queria ser vista, como agora está sendo”, propõe o psiquiatra.

“Ela queria reunir-se com amina”, propõe o velho.

“Se já foi vista ou se já se reuniu com… ‘amina’, não deveria sair agora?” observa a repórter.

E todos mais uma vez voltam-se à jaula. No colo de zuri, imani dorme. A leoa amina está de pé, junto aos demais leões. Os machos começam a rosnar e as fêmeas, a rugir. Zuri canta. Os visitantes começam a atravessar as faixas amarelas e os policiais param de os conter.

Nanan khay exclama aterrorizado:

“A canção dos leões!”

A repórter pega a câmera do cinegrafista aturdido e filma o avanço dos visitantes:

“Eles parecem encantados!”

O psicoterapeuta intervém:

“Zuri, sua mãe que a ensinou a cantar?”

A mulher para. Os leões param. Os visitantes afastam-se forçosamente com o avanço das autoridades.

“Os leões me ensinaram.”

A repórter aproveita a deixa.

“Quando que eles a ensinaram?”

“Quando nasci.”

“E por que você cantou há pouco?”

“Porque é como anunciamos um novo domínio.”

“Um novo domínio? Qual domínio?”

“Este território, o zoológico. Iremos retomá-lo, pois ele nos pertence.”

O dono do zoológico salta da cadeira, incrédulo com a afirmação. Uma ligação ocorre. Imediatamente, a manchete muda:

“Mulher terrorista invade zoológico para libertar animais das jaulas”.

A polícia passa a afastar os visitantes, que fogem desesperados. O dono percebe o prejuízo e outra ligação ocorre. Surge uma errata:

“Mas a situação está sob controle e o zoológico permanece aberto.”

“E por que você crê nisso?” indaga a repórter.

“Pois os leões creem, e eles creem porque esse lugar cheira a selva.”

As feras avançam nas grades e mastigam o ferro. A polícia abre fogo, e as balas erram. Os ambientalistas agitam-se e atacam com spray de pimenta. Zuri se senta e as feras recuam.

“Mas não iremos fazer nada, por enquanto.”

Os leões retornam às tocas, a polícia cessa fogo e os ambientalistas voltam ao protesto pacífico. O dono do zoológico apazigua a situação com a mídia e as instituições maiores para que nada demais ocorra.

“Não há como te fazer mudar de ideia?”, ansiosa, pergunta a repórter, trocando olhares com zuri, o psiquiatra e nanan khay.

“Há. Convencendo os leões.”

Zuri sorri com um sorriso bestial.


R. R. Schardosin

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