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VII - AO VIVO EM 3, 2...
Carine, a repórter, engoliu a resposta de zuri a seco. Estava no zoológico há mais de dois dias e não aguentava tantas respostas pela metade. Quando chegou para cobrir o acontecido, já haviam passado algumas horas do aparecimento de zuri na jaula. No começo, ficou feliz pela oportunidade de aparecer ao vivo na tv amazona, já que sua colega havia passado mal e precisou ser substituída. Não imaginava que a situação se alongaria por tanto tempo.
“Vá pro zoológico, uma mulher entrou na jaula dos leões. A carmem não tá em condições, me avisou agora, então corre que já perdemos muito tempo.” gritou o editor-chefe, como de costume.
Pensou que, quando chegasse ao local, encontraria apenas os restos do que foi uma mulher corajosa (ou doida mesmo) que havia se colocado naquela situação inimaginável. Por fim, o que a esperava era uma mulher convivendo amigavelmente com os leões, enquanto as pessoas surtavam ao redor. Já chegou brigando com o responsável do zoológico, que não queria a presença da imprensa, como se isso fosse negociável, não era, não com ela. Ela e seu colega, o cinegrafista, chegaram quando o zoológico estava sendo fechado para que a situação fosse contida. Tentaram usar tranquilizantes nos leões, como se eles oferecessem perigo à mulher, que estava aparentando uma paz incrível sentada entre eles.
“Acho que quem tá precisando de tranquilizantes é esse bando que não tem ideia do que tá fazendo, olha isso! Dá pra ver que estão desesperados e despreparados, pobres lões.” comentou com o cinegrafista, que balançava a cabeça em concordância.
Após algumas entradas ao vivo mostrando a situação da mulher e o caos que cercava a jaula, a repórter então perguntou:
“O que a levou a entrar nessa jaula?”
“Tenho sede.” respondeu zuri.
Carine pediu que o cinegrafista mostrasse a cena da mulher bebendo junto aos leões. Questionou ela quanto ao medo que sentia e até sobre sua comunicação com as feras. Mais respostas evasivas vieram. Assim que a câmera foi desligada, carine não pôde conter sua frustração.
“Tenho sede.” repetiu imitando a mulher.
“Isso lá é resposta? Pergunto o motivo e ela me responde que está com sede. Depois, mais metáforas. Que belo lugar pra uma reflexão! Espero que aguentar essa maluquice me renda uma promoção. É cada uma!” desabafou com o cinegrafista, que já conhecia seu temperamento.
No outro dia, a chamada escolhida pelo editor chefe ía totalmente contra o que a repórter havia passado a ele. O importante era lucrar, não informar.
O caos dominava o zoológico. Fora da jaula. Lá dentro acontecia alguma coisa que carine não entendia, mas estava atenta para tentar desvendar. Aguardava o dossiê que o agente da polícia havia prometido, informando tudo sobre a mulher. Conversando, aqui e ali, com as pessoas que haviam sido deslocadas pra fora do zoo, a repórter soube que, quando viram zuri pela primeira vez, só sabiam comentar sobre sua beleza. Realmente era uma mulher belíssima, mas não pôde deixar de questionar, mesmo que em pensamento:
“Que relevância isso tinha na história? Nenhuma! Que irritação ter que lidar com gente rasa, que só vê o que lhes esfregam na cara.”
Ouviu comentários como:
“Você viu que ela tem tatuagem de leão? Isso deve explicar alguma coisa.” falou o pipoqueiro que teve seu carrinho tombado na confusão.
Carine também tinha uma tatuagem de leão e nem por isso saía invadindo jaulas, mas achou melhor não retrucar.
“Você viu que ela está de sapatos novos?” cochicou a senhora enquanto fazia um algodão doce de um azul cor de céu. Mas carine só conseguiu pensar em quanto corante precisava pra chegar naquele tom.
Já lá dentro, enquanto permanecia do lado de fora do cordão de isolamento, observou atentamente a chegada do psiquiatra. Achou um lugar estratégico, para que, mesmo estando à certa distância, não perdesse uma palavra sequer ou qualquer movimento. Sua profissão a havia ensinado a não deixar nenhum detalhe passar despercebido. Não sabia o que ele havia feito de tão diferente para que a mulher lhe contasse tanta coisa de seu passado. Enquanto a repórter recebia charadas e frases sem sentido, o homem recebia informações importantíssimas. Estava anotando tudo.
A repórter juntava as poucas peças que tinha. Seu sonho sempre foi ser repórter investigativa, jamais imaginaria que no lugar de noticiar uma morte trágica da louca dos leões, estaria ali, tentando entender o que estava se transformando num grande mistério. Até então, o que sabia da mulher: bonita, uniforme da loja de perfumes, sapatos novos, tatuagem de leão (ou leoa), cantava coisas que ninguém entendia, não tinha medo dos leões, não falava com ela, mas falava com o psiquiatra, mãe morta, pai ausente, uma hora era invisível como a leoa, em outra dizia ser vista. Afinal, o que aquela mulher queria? Chamar atenção? Não tinha um jeito mais fácil? Queria aparecer na tv? Queria virar atração do zoológico? No fundo, carine achava que não era nada disso.
Mais tarde, naquele mesmo dia, outra uma coisa inesperada aconteceu. Agora era um velho. Chegando misteriosamente. De novo, um aparecimento repentino. Quando todos viram, já estava junto à zuri, mas do lado de fora da jaula. Cheio de dizeres numa língua que carine não compreendia, com uma história de passado na áfrica junto aos leões, parecia conhecer zuri e sua mãe, que agora carine sabia o nome: nala. A repórter ainda tentava entender o que estava acontecendo quando a leoa prenhe começou a parir seus filhotes. A cena mais improvável ocorreu: a leoa colocou um de seus filhotes no colo de zuri. Carine ficou com os olhos marejados. Sentiu que naquele momento possivelmente as coisas estivessem começando a fazer sentido. Talvez fosse a hora ideal para todos descansarem um pouco. Estavam precisando. Mas a repórter estava ali por uma razão e logo entrou ao vivo:
“Mulher leão chamada zuri permanece em jaula após sessão de terapia e conversa com homem misterioso”.
A notícia foi seguida da decisão de reabrir o zoológico. Todo o local e arredores viraram uma loucura, como se a situação já não fosse caótica o suficiente. Logo o editor-chefe manda que carine explore mais a situação. E assim as entradas ao vivo se transformam em verdadeiras cenas de horror, com discussões entre a repórter, o psiquiatra e o velho. Carine fazia perguntas enquanto os dois disputavam quem sabia mais sobre a mulher que cantava, alheia ao caos, com a filhote adormecida em seu colo.
A cantoria não resistiu ao debate fora da jaula, carine tinha perguntas, todos tinham respostas, mais notícias foram dadas ao vivo.
O verdadeiro pandemônio se instala até que zuri, agora, quer que nosso diálogo seja com os leões.
“Os leôs?” pergunta a repórter, incrédula.
Zuri apenas a encara enquanto volta a cantar para a filhote em seu colo.
“Mas isso é um absurdo! Quem essa mulher pensa que é, brincando com todos dessa maneira?” vocifera a repórter.
“Estamos todos cansados dessa palhaçada, mas estamos fazendo um bom trabalho” acalma o cinegrafista.
“Juro que se ela não tivesse protegida por esses leões eu mesma arrancava ela de lá pelo pescoço, não aguento mais esse jogo dela! Pra mim já chega!” exaspera carine.
“Vamos fazer uma pausa, depois dessa última entrada vão ficar um tempo sem abrir ao vivo novamente, aproveita e descansa.” diz o cinegrafista com toda a calma, contrastando com sua colega.
A repórter se afasta da jaula e caminha entre as árvores próximas aos carrinhos de comida. Enquanto sente o cheiro da pipoca invadir suas narinas, fazendo seu estômago roncar, não pôde deixar de notar a mulher que se esgueira por entre os troncos. Já a havia visto de longe, não uma, nem duas vezes, ao longo do dia. Assim que encontra um banco afastado, a mulher se senta enquanto observa o movimento ao redor. Carine chega como quem não quer nada:
“Tentando entender toda essa bagunça também?”
A mulher encara as próprias mãos enquanto gira um anel velho, nitidamente grande demais para seus dedos finos. Carine olha demoradamente para a mulher, coisa que ainda não tinha feito, talvez ninguém tivesse. Até porque, se alguém o tivesse feito, teria percebido o que agora estava estampado à sua frente.
A mulher segue de cabeça baixa, olhar fixo no anel. Não quer ser vista, se tivesse poder para isso, com certeza teria ficado invisível ao perceber a atenção da repórter. Mas não tinha, e então carine, com uma mistura de firmeza e incredulidade, pergunta:
“Nala?”
A mulher ergue os olhos e a encara. A repórter não sabe se pela falta de sono dos últimos dias, ou por ter olhado para os leões por tantas horas seguidas, mas jura ter visto as pupilas da mulher se estreitarem como as de um felino.
Mila Vieira
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