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IV - A sessão de terapia
Logo cedo, o agente da polícia tentou a primeira aproximação com a bela mulher da jaula. Levou para ela um sanduíche, uma maçã e um café com leite, mas não conseguiu nem uma palavra em troca. O agente tinha experiência em negociar com sequestradores, mas não com quem sequestra a si mesmo e não quer sair do cárcere. A essa altura, os bombeiros e a polícia já haviam isolado o local, e os curiosos ainda dormiam seus bons sonos após a excitação da noite anterior. À imprensa foi permitido permanecer dentro do zoológico, porém nos limites do cordão de isolamento de onde receberia informações das autoridades somente quando possível.
Foi, então, a vez do psiquiatra. Tratava-se de um perito da polícia, um psiquiatra forense. Desde que passara no concurso do governo do estado do amazonas, o homem abandonara sua parca clientela clínica para deixar a burocracia amassar suas ambições sob o peso de cada laudo emitido. O perito era, na verdade, um psicoterapeuta lacaniano cujos sonhos foram frustrados. Chegou descabelado e ainda coçando os olhos de sono. Era um homem baixo, passando da meia idade: barba por fazer, camisa de botão levemente amarrotada e calça um pouco maior do que o seu número. Após receber informações não muito relevantes do agente da polícia, foi se aproximando da jaula ligeiro, como quem chega atrasado para uma reunião marcada. Foi, então, despertado de seu modo automático pelos rugidos dos leões que voltaram a se aglomerar próximo à grade, deixando a mulher de uniforme rosa de pé, em segundo plano. Era preciso acalmar suas feras antes de acessá-la.
O psiquiatra deu um passo atrás, pediu um banquinho e solicitou que todos, inclusive policiais e bombeiros, ficassem atrás do cordão de isolamento. Ao sentar-se, os leões foram se aquietando. Parecia que os animais começavam a confiar um pouco no homenzinho, e a mulher, juntando-se às feras, aproximou-se um pouco mais da grade.
“O que te trouxe aqui?”, disse o homem para a mulher da jaula.
“Sou invisível.”
“Eu posso vê-la.”, disse o perito, assumindo aos poucos o papel de terapeuta.
Seguiu-se um longo silêncio. O psiquiatra se ajeitou no banquinho, aproveitando para trazê-lo um pouco mais para a frente, sem chamar a atenção dos leões.
“Como é a sua família? Ela pode vê-la?”, questionou.
“Não tenho família.”
“E sua mãe?”
“Morreu.”
“E o pai?”
“Não tenho.”
“Você não o conhece?”
“Sei quem é”, disse a mulher, lacônica.
O terapeuta lacaniano deu tempo a ela. Os olhos dela, paralisados e perdidos em algum ponto para além do interlocutor, se encheram de lágrimas sem deixá-las cair. Era claro que ela tinha muito a dizer. Um minuto de silêncio se passou, aumentando a angústia da mulher que se viu obrigada a falar para expulsar aquele sentimento que a esmagava de dentro para fora.
“Meu pai é um bosta. Um branco sulista fuleiro. Tem outra família, branca. Essa outra família ele enxerga, mas para mim sempre teve os olhos cegos. Pagou a pensão sem reclamar, é verdade, mas hoje vejo como o simples cumprimento do seu dever era mais uma forma dele não se preocupar comigo além da obrigação legal. ‘Pensão paga, dever cumprido e não devo mais nada pra ninguém’ é o que ele sempre pensou. E pior! Apesar de não nos querer, sempre se achou nosso provedor e titular de certos direitos. Quando eu era menina, ele vinha nos visitar uma vez por mês. Participava das festas de aniversário e dormia lá em casa, no quarto de mamãe. Manteve sempre uma pecinha nos fundos do nosso quintal com suas tranqueiras: ferramentas, sucatas, um tambor de cuia, um violão empenado, fotos, cartas e revistas de mulher pelada. Tudo que a galega aguada não queria na casa dela, ficava na nossa. Com o tempo, as visitas ficaram mais esparsas, mas nunca pararam por completo. Volta e meia, ele aparecia lá para atravancar a sala e a vida de mamãe. Chegava no final da tarde, brocado querendo merenda. Depois, cafezinho e cachaça. Ficavam de papo, os dois, até altas horas. Tinha vezes que ele ficava dois ou três dias de bubuia lá em casa tocando a porra daquele violão que não pegava afinamento. Depois de zerar a geladeira e as bebidas, dizia que tinha que cuidar da vida. Assim como tinha vindo, pegava o beco.”
O psiquiatra ficou em silêncio absorvendo a informação. Achou tudo muito interessante e promissor. Já na primeira sessão, a paciente estava se abrindo um pouco sobre questões familiares delicadas. O terapeuta queria saber mais sobre esse pai ausente-presente. Sobre a relação com a mãe ainda não se sabia nada, somente que essa senhora viveu e morreu com o ex-marido à sua volta. Uma atitude que em nada remetia à leoa, com quem jovem parecia estar criando uma espécie de ralação familiar. Com confiança no método, o lacaniano pensou que, em alguns anos de psicoterapia, a jovem poderia voltar a sentir-se vista no mundo e, aí então, conseguiria sair da jaula. O homem olhou para os lados e viu seus colegas policiais, bombeiros e funcionários do zoológico cochichando já apreensivos e, com certeza, duvidando de sua aptidão para resolver o assunto. Obviamente não era viável um tratamento de longo prazo para tirar a mulher da jaula. Resolveu, então, acelerar o processo subvertendo o método aqui e ali. Aproximou-se com seu banquinho mais uma vez e disparou:
“Era violento, o seu pai?”
“Em mim ou mamãe nunca deu uma pisa”, disse a mulher, e começou a divagar com longas pausas entre seus pensamentos. “A violência sobre nós, nunca não está. Em cada ação, em cada olhar. Mesmo vindo de quem é da família. Ou ainda mais de quem é da família! Quando eu era menina, meu pai me deu um cachorro. Hoje chamariam de caramelo, mas que para mim era dourado. O nome dele era Simba por causa da pelagem de leão. Por um ano inteiro, Simba foi minha grande paixão. Influenciada por histórias de reis e rainhas africanos que ouvi no terreiro frequentado por mamãe, inventei uma história. O cão era um leão e um rei, guardião da nossa família e da nossa tribo. Era ele que nos protegia de ameaças externas como o exército dos moleques da rua, o lixeiro, o afiador de facas, os outros cachorros e gatos. Também era ele que, de forma justa e soberana, julgava qualquer controvérsia entre mamãe e eu, dando sempre razão a mim. Simba era fiel, corajoso, sábio e forte. Até que começou a correr atrás do próprio rabo. Tinha cinomose, disseram. Mamãe chamou meu pai para resolver o problema. Ele chegou lá em casa e disse para eu ficar na sala enquanto ele ia cuidar do cachorro. Em seguida, ouvi o barulho seco do tiro de revólver. Simplesmente atirou na cabeça dele sem reza nem nada e o enterrou ali mesmo, onde caiu. Um rei foi morto ali. O meu rei.”
A partir daí, a mulher se calou. Diante das novas investidas do psiquiatra, apenas apertava a cara em sinal de sofrimento, se fechando ainda mais. O terapeuta entendeu que, ao ausentar-se, o pai deixara um lugar vazio, sem permitir, no entanto, que esse espaço fosse ocupado por mais nada ou ninguém. Nem mesmo o cachorro que ele próprio dera de presente. Pensou que talvez fosse esse vazio que a obrigava a viver uma vida invisível. Em dado momento, a bela jovem sentou-se na terra um pouco encolhida, com os braços abraçando os joelhos. Os leões, que até agora zanzavam em sua volta, se aproximaram deitando-se no chão. A leoa prenhe, a última a ficar de pé, empurrou o tronco da mulher com sua cabeça descomunal em um gesto bruto e, ao mesmo tempo, carinhoso. A jovem se desequilibrou e, ao ajeitar-se novamente, sentou-se com as pernas cruzadas, no que a leoa deitou repousando a cabeça em seu colo. Nesse momento, o psiquiatra se arrumou no banquinho aproximando-se mais um pouco da jaula.
“Te sentes bem aí, presa entre as grades?”
“Aqui sou vista.”
“E sua mãe, também tinha os olhos cegos para você?”
A mulher mudou a expressão, arregalando os olhos e enrijecendo todo o corpo como um animal ameaçado. Abriu a boca de maneira sobre-humana mostrando até os últimos molares e soltou um rugido assustador. Estranhamente o terapeuta não se abalou e encerrou a sessão com um corte lacaniano.
“Por hoje, podemos ficar por aqui”.
Nico Collares
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