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Destaques

XIII - MWANZO MPYA

“Mamãe, posso ir do outro lado do zoológico? Quero ouvir o sacerdote” Nia andava com os dois filhos onde um dia fora um lugar somente de tortura e prisão. Em teoria ainda era um zoológico, mas diferente. As jaulas, em números bem reduzidos, se mesclavam a paisagem da savana. Em vez dos maus tratos era um local de aprendizado. Ainda assim persistia nela o temor de uma nova revolta dos animais enjaulados. Um rugido soou ao longe arrepiando todos os pelos do seu corpo. Mas respondeu: “Pode sim, querido. Nós também vamos acompanhar a cerimônia. Vá na frente, mas não chegue muito perto das grades” O pequeno saiu em disparada enquanto dizia:  “Baraka mama” Bença, mamãe  “Imani akubariki, Mwanangu” Imani te abençoe, meu filho Somente a irmãzinha continuou a caminhar ao lado de nia. Seu rostinho estava sério quando perguntou: “Como era o mundo antes do Mwanzo Mpya?” “Minha filha, isso foi muito antes de você nascer, a terra já deu muitas voltas em torno do sol desde aquele dia. E eu n...

I - A jaula



Ninguém velou seu sono nem a viu acordar. Ninguém tinha percebido que ela já havia tomado banho, secado o cabelo e se maquiado. Ninguém a havia notado quando comprou pão integral e duas fatias de peito de peru na padaria ivete. Ninguém a viu quando abriu o portão da garagem do condomínio méridien, nem quando conduziu o carro pela ruas olivério duarte, marquês de souza, bruna toledo e paulo de almeida prado. Nos sinais fechados, ninguém notou seu cabelo curto, o colar e os brincos em ouro branco e lápis-lazúli. Quando estacionou o carro, ninguém notou que ia ao trabalho, posto que vestisse o uniforme rosa-claro da loja le parfum des sapins. Nem ninguém olhou para os seus pés para notar que era a primeira vez que usava o mocassim de camurça. Ninguém, absolutamente ninguém que precisou comprar perfumes naquela manhã notaria sua pele negra, a boca carnuda, os olhos um tanto castanhos, a voz aguda demais. Ninguém a seguiu até o bistrô délices para vê-la comer pouco, sobretudo salada e um filé de peixe grelhado, beber uma limonada suíça e, para fechar a conta, um café expresso. Quando eram horas de voltar ao trabalho, ninguém a viu retornar ao carro e dirigir a esmo (ninguém percebeu que era a esmo). Ninguém notou quando ela parou subitamente em frente ao zoológico e ninguém a viu caminhar — uma mulher de uniforme rosa-claro que vai caminhar sozinha no zoológico antes das duas da tarde é algo quase impossível de não ser notado. E no entanto ninguém viu quando ela simplesmente entrou na jaula dos leões. (E ninguém soube como).

As motivações: seu primeiro brinquedo de infância, a tarefa de caçar que cabia às leoas, o filme o rei leão, o signo, uma tatuagem. Ainda mais: a coragem de fazer o que ninguém fez, sobreviver ao impossível, desafiar quem a vê. Assim, uma mulher bonita, de pele negra e de uniforme, que inexplicavelmente entra na jaula dos leões torna-se interessante. Pois ela havia se tornado repentinamente interessante.

Um rapaz do correio foi o primeiro a notar. E apontou assim:

"Que mulher bonita aquela na jaula dos leões!"

E ele disse:

"Que interessante!"

Pessoas passaram a ver o quão bonito era ela. Estava sentada no chão de terra, olhando tranquilamente para os leões. O guarda do zoo apitou e ia dizer à mulher que saísse imediatamente, que era proibido entrar na jaula dos leões, mas só disse que ela era uma mulher bonita,

"Tão bonita que dá vontade de também entrar na jaula!"

Uma aglomeração de pessoas que estranhamente estavam no zoológico antes das duas da tarde começou a cercar a área dos leões. Notaram, então, que a mulher, além de bonita, usava uniforme de loja de perfumes, que estava de mocassim novo, que usava maquiagem leve e que o batom em tons de guaraná casava bem com os lábios grandes e aquela pele de ébano. E notaram enfim que o cabelo devia ter sido cortado havia sete dias, no máximo. Uma senhora concordou que prata e lápis-lazúli combinavam bem.

"Não é prata. É ouro branco, olha!"

Outra senhora mandou olhar, e se percebeu mesmo que prata não brilhava tanto.

"Ela tem uma tatuagem, olhem: parece um rabo que toca o pescoço."

Notaram então que era um rabo com penacho na ponta, um rabo de leão, ou leoa, podia ser. E só aí olharam para os leões: dois machos, um de juba negra, outro, vermelha. Eram três leoas, uma enorme, talvez prenhe. E nenhum dos animais fustigava a mulher, a notava, nem talvez a visse. A mulher que tinha entrado na jaula era devassável, e o olhar dos leões passava através dela.

Veio um homem de branco que parecia ser veterinário. Chegaram duas viaturas da polícia. Pessoas falavam sem parar, impediam que se chegasse mais perto. Houve conflitos e atropelos, e a carrocinha de pipoca acabou virada. O zoológico inteiro se apertava pra ver a jaula dos leões.

"Como ela entrou na jaula, alguém sabe?"

Todos falaram ao mesmo tempo, mas ninguém conseguiu explicar.

Um policial constatou que não havia fresta suficiente para que passasse uma pessoa entre as grades. Os cadeados estavam mesmo fechados? Outro

policial saltou a mureta e foi verificar. Mas então os leões investiram contra as grades (as leoas na verdade, porque os leões resolveram deitar muito perto da mulher de uniforme que, num gesto que lhe pareceu simples, esticou a mão e acariciou as jubas negras de um leão. E só então se viu que era o maior leão da jaula).

"Os leões a viram, olhem!"

O pipoqueiro apontou para a leão de jubas pretas, que se esticou ao lado da mulher. E então a leoa prenhe veio deitar-se à frente dos dois, acomodando a barriga sobre o chão de terra — e viram-se as tetas rosadas que estalavam. A mulher da jaula se escorou no leão enorme e cantou alguma coisa.

Uma mulher com uniforme de caixa de supermercado chorava, desesperada.

"Para que fazer isso?"

Mas a mulher da jaula já tinha feito. E agora cantava mais alto.

Uma criança riu, e depois outras mais, e manifestavam claro desejo de entrar também. O policial que estava próximo da mureta sussurrou para a mulher da jaula:

"A senhora tem que colaborar, ou vai ser presa."

A mulher da jaula pareceu não entender. Mas em seguida parou de cantar.

O homem de branco, o provável veterinário, trouxe dois rapazes também de branco. Tranquilizantes foram preparados. A polícia abriu um vão entre as pessoas, e os veterinários se aproximaram e fizeram mira e dispararam. Dois dardos atingiram o leão maior, de jubas negras. Um atingiu o de jubas vermelhas. Duas leoas foram atingidas a seguir. Com uma vara, os veterinários incomodavam a leoa prenhe, que se levantou e também recebeu um dardo. A orientação era para que esperassem até os leões dormirem. A multidão foi sendo dispersada. O zoológico, aos poucos, começou a ser fechado justamente quando a imprensa chegava: um cinegrafista e uma repórter da tv amazona. Começava uma discussão entre a repórter e um homem de paletó — alguém informou que era o responsável pelo zoológico. O cinegrafista não permitiu de jeito algum que pusessem as mãos na sua câmera. E então, após o tumulto, a multidão que ia sendo empurrada começou a gritar coisas impronunciáveis, e entendeu-se que eram palavras de apoio à mulher que havia entrado na jaula dos leões, mas aí um

leão passou a rugir violentamente. Só então o responsável permitiu que os jornalistas fossem ver a mulher na jaula.

Calmamente ela se manteve sentada. Caía a noite, e os veterinários ainda esperavam pelo efeito do tranquilizante. Os outros animais pareciam fazer silêncio. Só os leões se mostravam mais agitados. O de jubas negras veio até a grade e, sem tirar os olhos das pessoas, ficou dando voltas, testando a grade com a força das patas.

"Esses leões não vão dormir?"

Mais dardos foram disparados. O veterinário temeu que a dose fosse elevada demais, um risco enorme. E a repórter informou a situação, dizendo que os animais resistiam aos tranquilizantes. O leão de juba negra rugiu novamente, e o cinegrafista focou nele. O leão já testava a grade com os dentes, sempre olhando para as pessoas.

A repórter, a distância, perguntou gritando qual eram as motivações da mulher da jaula. Ela respondeu:

"Tenho sede."

"Ela está com sede!", a repórter noticiou ao microfone e pediu que o cinegrafista a filmasse.

E então a mulher da jaula se levantou e caminhou entre os leões. A leoa prenhe a acompanhou. Diante do bebedouro, a mulher abaixou-se e, esticando a língua, começou a beber antes da leoa.


Prof. Altair Martins

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