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Destaques

XIII - MWANZO MPYA

“Mamãe, posso ir do outro lado do zoológico? Quero ouvir o sacerdote” Nia andava com os dois filhos onde um dia fora um lugar somente de tortura e prisão. Em teoria ainda era um zoológico, mas diferente. As jaulas, em números bem reduzidos, se mesclavam a paisagem da savana. Em vez dos maus tratos era um local de aprendizado. Ainda assim persistia nela o temor de uma nova revolta dos animais enjaulados. Um rugido soou ao longe arrepiando todos os pelos do seu corpo. Mas respondeu: “Pode sim, querido. Nós também vamos acompanhar a cerimônia. Vá na frente, mas não chegue muito perto das grades” O pequeno saiu em disparada enquanto dizia:  “Baraka mama” Bença, mamãe  “Imani akubariki, Mwanangu” Imani te abençoe, meu filho Somente a irmãzinha continuou a caminhar ao lado de nia. Seu rostinho estava sério quando perguntou: “Como era o mundo antes do Mwanzo Mpya?” “Minha filha, isso foi muito antes de você nascer, a terra já deu muitas voltas em torno do sol desde aquele dia. E eu n...

III - Panorama zoológico


Contida a situação, com os frequentadores do zoológico afastados, com os veterinários e demais funcionários de prontidão, polícia presente e também com uma ambulância no local, a imprensa oficial e a oficiosa fizeram o seu papel da maneira mais efetiva em disseminar o fato e causar o maior dano possível para o maior número de pessoas no menor espaço de tempo.

“Jovem enlouquecida invade jaula dos leões para ser devorada”.

Não precisou de mais nada quando a chamada na rádio, a interrupção na programação de televisão e as fotos explodiram no WhatsApp. 

O editor chefe do jornal pensou: “um suicídio ao vivo dessa natureza é coisa rara! Vai render uns bons trocados!”

O delegado de polícia pensou: “que merda, mais uma maluca!”

O diretor do zoológico pensou: “dessa vez perco o emprego!”

O legista pensou: “Ao menos vou ter menos trabalho porque os leões não vão deixar muita coisa!”

A jovem negra que do invisível anonimato surgiu para o centro das atenções agora assumia um outro papel: era um problema social envolvendo a todos.

E a coisa não parava de tomar novas e insólitas proporções quando por verdade ou falsidade se cogitou o abate a tiros dos leões visto que não respondiam aos sedativos e a moça, louca ou não, devia ser salva da morte.

Defensores da causa animal, em massa, se dirigiram para o portão do zoológico causando um tumulto que terminou em repressão policial deixando dois feridos sem gravidade. Esse fato por sua vez gerou um segundo protesto por um grupo de defesa dos direitos humanos em favor da liberdade de expressão e direito à vida, o qual também foi reprimido resultando em meia dúzia de feridos leves, entre eles um dente quebrado quando um manifestante acidentalmente atingiu a bota de um policial militar com a boca!

Do lado de fora, a confusão não parava de aumentar com a chegada de vendedores de lanches, bebidas, lenços, bonés e até de um hábil vendedor de marijuana.

A situação dentro do zoológico por outro lado era mais tranquila, mesmo com uma pessoa desconhecida tendo invadido a jaula dos leões.

A jovem agora dormia placidamente entre as feras que se revezavam em vigília. Por sugestão do veterinário foi aumentada a ração diária de carne com a perspectiva de que, bem alimentados, perderiam o interesse em trucidar a menina. Aparentemente estava dando certo, e a situação chegava ao impasse derradeiro: fazer o quê? 

A aproximação simples da jaula já despertava a reação agressiva dos animais. O uso dos sedativos nas dosagens habituais foi ineficaz, e o excesso poderia causar a morte. O abate dos animais com balas de fuzil disparadas por atiradores fora descartado por hora. A moça de maneira furtiva, deliberada e irresponsável se colocou em tal situação; tinha que arcar com todas as consequências, e a noite além do mais se aproximava.

Se a situação pudesse ser registrada em uma imagem dentro da jaula, no interior do zoológico e no entorno, se poderia tranquilamente dizer que a nossa amiga estava no lugar mais protegido do mundo. Ali entre as feras estava blindada de todas as boas e más-intenções. Havia trocado a fina e fria camada protetora da indiferença social pela robusta, peluda e brutal força das garras e mandíbulas dos leões. Neste mundo todos, de uma forma ou outra, se cercam, se protegem. Mas ela atingiu o grau do impensado, do fantástico! Abrigou-se entre as feras.  

“Vamos levar as coisas com muita cautela” , disse o chefe dos bombeiros.

Armas de fogo e miras de visão noturna garantiriam a vida da jovem e decretariam a morte dos animais na pior das hipóteses. 

Decisão unânime entre os membros do comitê de crise do zoológico envolvendo o prefeito, o comissário de polícia e  alguns representantes de entidades civis. Um psiquiatra seria designado a tentar alguma estratégia de aproximação para dissuadir a jovem de suas ideações, e um agente policial foi destacado para montar um dossiê completo para saber afinal quem era aquela jovem. Todas as informações poderiam ser úteis.

Do lado de fora a multidão acampou na praça em vigília e acenderam-se velas.

A cúria que ficava próxima manteve as portas abertas enquanto os fiéis rezavam e cantavam com lágrimas de verdadeiro sofrimento temendo pela vida da menina. Uma placa na entrada advertia: banheiro de uso exclusivo dos fiéis.

O comércio em geral, inclusive restaurantes e lanchonetes, ficaram abertos para atender o aumento da demanda. Placas advertiam a exemplo da igreja: banheiro de uso exclusivo dos clientes.

O cabaré, com grande procura, também sofreu o forte impacto dos acontecimentos e precisou do reforço de mais acompanhantes, as quais atendiam clientes bêbados no salão lotado  fazendo apostas a dinheiro de quem morreria antes: a menina ou os leões. Não havia aviso de restrição alguma ao uso dos banheiros.

Mas, como de costume, a longa espera sem novidades foi deixando todos muito cansados e lá pelas duas da manhã mesmo o mais devoto religioso e o mais irascível boêmio haviam capitulado ao sono.

Insidiosa, a noite se fez presente e, na escuridão, o silêncio.

Todos dormiam a sono solto como se os sedativos aplicados nos leões tivessem surtido efeito nos humanos somente, e as feras que, neste momento de paz, estavam todas acordadas e muito bem acordadas, observavam a jovem que também desperta, de pé, parecia flutuar entre as gigantescas criaturas dando a sensação de conjunto construído da mesma substância.

A pálida luz da noite trazia o frescor de uma mágica ligação ancestral entre os ocupantes da jaula. Um transporte metafísico para a savana africana onde tudo começou. Onde a violência latente era condição de sobrevivência e não uma forma inútil de opressão sobre a existência dos demais seres. A natureza pode ser dura, mas é sábia.

E foi no tímido instante em que a primeira luz da madrugada se fez notar que iniciou vagarosamente o segundo dia dessa nossa história!


Marcelo Folgierini

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