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Destaques

XIII - MWANZO MPYA

“Mamãe, posso ir do outro lado do zoológico? Quero ouvir o sacerdote” Nia andava com os dois filhos onde um dia fora um lugar somente de tortura e prisão. Em teoria ainda era um zoológico, mas diferente. As jaulas, em números bem reduzidos, se mesclavam a paisagem da savana. Em vez dos maus tratos era um local de aprendizado. Ainda assim persistia nela o temor de uma nova revolta dos animais enjaulados. Um rugido soou ao longe arrepiando todos os pelos do seu corpo. Mas respondeu: “Pode sim, querido. Nós também vamos acompanhar a cerimônia. Vá na frente, mas não chegue muito perto das grades” O pequeno saiu em disparada enquanto dizia:  “Baraka mama” Bença, mamãe  “Imani akubariki, Mwanangu” Imani te abençoe, meu filho Somente a irmãzinha continuou a caminhar ao lado de nia. Seu rostinho estava sério quando perguntou: “Como era o mundo antes do Mwanzo Mpya?” “Minha filha, isso foi muito antes de você nascer, a terra já deu muitas voltas em torno do sol desde aquele dia. E eu n...

II - O animal


A mulher demorou-se a beber no recipiente metálico, sob o olhar fixo da leoa e das câmeras do cinegrafista. Após alguns instantes, parou e fez um movimento com a língua para limpar os vestígios da água que escorria por seus lábios. Ergueu o rosto em um movimento rígido e olhou dentro dos olhos da leoa prenhe. E então a leoa rugiu alto, um rugido longo e sofrido –– mais alto que o leão de juba negra. Depois, se pôs ao lado da mulher e bebeu junto. Os funcionários, os veterinários, a repórter, o cinegrafista e a audiência do jornal noturno da tv amazona, todos olhavam a cena de fora e estavam em dúvida de quem era o animal: a leoa ou a mulher.

Muitos anos antes de a mulher entrar na jaula, a leoa vivia em uma savana remota e selvagem, abraçada ao longe pelas montanhas que protegiam a área de qualquer vizinho indesejado. O território era vasto e abundante, um paraíso sem cercas. O azul-celeste do céu se estendia até beijar a vegetação rasteira, formada pela mistura verde intensa de gramíneas, arbustos e árvores esparsas que contrastavam com a pelagem amarelo-queimado da leoa. Nesse lugar, ela triunfava. Além de seu colossal porte físico, sua presença emanava o mais alto respeito entre os leões. O equilíbrio reinava. Ela gostava do senso de família que haviam criado e, apesar de não ter filhotes próprios, ajudava a criar os das outras leoas, protegendo-os como se fossem seus. Na hora de caçar, estava sempre à frente do bando. Não tinha medo dos animais maiores e preferia ir atrás das zebras. Nos fins de tarde, depois dos dias quentes e antes das chuvas, ia se refrescar no lago, junto com as hienas e os crocodilos. Raso na margem, o lago refletia a perfeita harmonia do local e abrigava todos os animais –– que, naquele refúgio, deixavam de lado o papel de presa e predador.

A savana era intocada pelo homem, até que, um dia, isso mudou.

No começo, vieram somente dois. Eram turistas. E não pareciam ser nenhuma ameaça. Trouxeram uma barraca de camping, lanternas, binóculos e lunetas. Observavam a savana afastados e pouco interagiram com o ambiente. A leoa não notou suas presenças. 

Depois, vieram mais alguns. Começaram a aparecer jeeps quatro por quatro queimando diesel pelo ar. Trouxeram um material mais pesado: gaiolas, caixas, redes e armas de fogo. Em vez das lunetas, agora os rifles apontavam diretamente para a cabeça dos animais. Um por um, foram desaparecendo no meio da noite. As hienas primeiro, depois as zebras e, em seguida, os crocodilos.

E sobraram os leões. 

Foram montadas diversas armadilhas por toda a savana. Os filhotes nem tiveram chance. Alguns morriam ali mesmo, outros no caminho por saudade da mãe. E a caçada continuava. Premeditada, calculada e fria.

Da noite para o dia: foi assim que a capturaram. 

Os cães, que não faziam parte daquela savana, saíram dos jeeps e cercaram a leoa ao redor do lago. Os dardos embebidos de tranquilizantes choveram pelo céu e a acertaram por todo o corpo, fazendo com que caísse sobre a terra molhada. Um homem gritou:

“Bicho enorme, vai dar a maior grana.” 

Em seguida, outro:

“Circo, zoológico ou couro, quem paga mais?”

Venderam-na para o maior lance. 

A vida que ela conhecia desapareceu. Agora, ia de jaula em jaula e passava a maior parte do tempo dopada. Não comia, não se importava com mais nada. Andou pelas mãos de dois ou três ricos excêntricos, mas não durou muito. Ou não rugia o suficiente, ou não mostrava os dentes como queriam, ou era porque não tinha juba. Foi parar em alguns parques. Tentaram colocá-la acorrentada no centro do palco, em carrinhos envidraçados ou vestida com alguma fantasia escandalosa, mas os funcionários tinham medo de chegar perto. Sua presença afetava o ambiente, era difícil trabalhar com um leão enorme por ali, então finalmente foi levada ao mais novo zoológico da região amazona. Acomodaram-na em uma jaula, e a placa dizia “atração principal –– os reis da selva”. Virou entretenimento.

Leões e leoas iam e vinham na jaula. Os que morriam eram jogados num valão; os que não se adaptavam eram transportados para outras jaulas. O barulho do zoológico era infernal, com máquinas trabalhando vinte e quatro horas por dia para enclausurar mais animais que iriam ser capturados de seus espaços, funcionários gritando, pessoas conversando, sirenes, pipoca estourando, crianças rindo. 

Às vezes os turistas se aproximavam demais. Nesses momentos, a leoa reagia. Tentou arrancar a mão de um, e então conheceu a ponta da vara. Rosnou para outros que jogaram pipoca na jaula e recebeu a ponta da vara. Arranhou a grade quando o flash das câmeras estourou em seus olhos e, de novo, a vara estava lá. Se jogou contra as barras tentando achar a saída e voltar para sua savana, mas a vara a esperava mais uma vez. Quando não era a vara, os dardos rasgavam-lhe a pele com violência, deixando a visão nebulosa até tudo se tornar confuso e preto.

Mais alguns leões chegaram e a jaula foi ficando mais apertada, no entanto, os funcionários do zoológico ainda não estavam satisfeitos. Trabalhavam incessantemente para pensar em mais atrações. E chegou o dia em que tiveram a brilhante ideia:

“Queremos filhotes de leão!”

Os filhotes eram os mais caros de comprar, porque pouquíssimos deles chegavam vivos. Decidiram, então, eles mesmos colocar a leoa de pelagem amarelo-queimada e o leão de juba preta em um cubículo e os forçaram a acasalar. Usaram varas e um chicote. Após algumas tentativas, ela engravidou.

Prenhe, com dificuldade para caminhar, passava a maior parte do tempo deitada de barriga para baixo sobre a terra. Não se importava com a presença dos outros leões, que não eram a sua família. Os turistas continuaram passando pela jaula e a encarando, mas ela nem mais retribuía o olhar. Queria se esconder, mas ali não havia arbustos nem pequenas árvores.

Tudo mudou no dia em que a mulher entrou na jaula. Por uma fresta, uma barra que escapou ou um rasgo quase invisível na grade, a mulher humana estava do seu lado. A leoa não sabia se a mulher era uma turista ou mais outro leão. (E depois de tantos dardos já não conseguia diferenciar). Quando a mulher se aproximou, a leoa não atacou, não se importou com a cantoria, nem com as outras coisas que ela pudesse fazer. Estavam as duas naquela jaula. E então beberam juntas.

Enquanto a câmera registrava a cena, a repórter gritou:

“O que significa beber junto com a leoa? Você não tem medo?”

A mulher respirou profundamente e, antes de falar, olhou para a leoa e respondeu:

“Não sou a única forçada a viver...”, ela fez uma pausa e continuou: “uma vida invisível.”

As palavras pesaram no ar. Os outros leões se aproximaram. Estavam agitados. Alguns rugidos começaram a ser ouvidos. Outros animais reagiram. O cinegrafista balançou a câmera. A repórter manteve o microfone perto da mulher.

“Você acha que eles podem entender o que você diz?”, a repórter perguntou com a voz trêmula.

A mulher sorriu para a repórter e depois para a câmera. E então, os animais se jogaram na direção das grades.


Isabelle Miranda


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