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Destaques

XIII - MWANZO MPYA

“Mamãe, posso ir do outro lado do zoológico? Quero ouvir o sacerdote” Nia andava com os dois filhos onde um dia fora um lugar somente de tortura e prisão. Em teoria ainda era um zoológico, mas diferente. As jaulas, em números bem reduzidos, se mesclavam a paisagem da savana. Em vez dos maus tratos era um local de aprendizado. Ainda assim persistia nela o temor de uma nova revolta dos animais enjaulados. Um rugido soou ao longe arrepiando todos os pelos do seu corpo. Mas respondeu: “Pode sim, querido. Nós também vamos acompanhar a cerimônia. Vá na frente, mas não chegue muito perto das grades” O pequeno saiu em disparada enquanto dizia:  “Baraka mama” Bença, mamãe  “Imani akubariki, Mwanangu” Imani te abençoe, meu filho Somente a irmãzinha continuou a caminhar ao lado de nia. Seu rostinho estava sério quando perguntou: “Como era o mundo antes do Mwanzo Mpya?” “Minha filha, isso foi muito antes de você nascer, a terra já deu muitas voltas em torno do sol desde aquele dia. E eu n...

XI - MÃE E FILHA


Nala soltou o braço de nanan khay, trocando com ele um olhar que dispensava palavras. Então deixou a repórter, o psiquiatra e o cinegrafista para se resolverem com thimba, o leão de juba vermelha, e o restante dos animais. Nanan seria capaz de conter o estrago. Assim, nala entrou na jaula, caminhando na direção da filha.

Amina foi a primeira a notar a sua presença, embora não tivesse se movido de seu lugar perto do lago. Não lambia mais os filhotes. Seus olhos estavam fixos em um ponto longínquo, e nada do que acontecia ali parecia ser capaz de interessá-la. Zúri continuava a cantar, apoiada em uma das leoas que a ajudavam, os olhos fechados.

“Malaika nakupenda malaika”

Sua voz era tão linda quanto da última vez que a ouvira. Nala sentira falta da filha.

“Binti”, ela chamou. Filha.

Zúri abriu os olhos. Os mesmos olhos castanhos que lhe sorriram tantas vezes agora se enchiam de desgosto.

“Mãe” – Aquela única palavra estava impregnada de tamanho desprezo que nala sentiu-a como um soco. Mesmo assim, aproximou-se da filha que, em uma tentativa de se afastar, reabriu o ferimento na perna.

“O que está fazendo aqui?”

“Eu disse que voltaria.” 

Ela se resignou a falar em português. Zúri nunca falava em suaíli quando estava brava.

“Kwa heri ya konana” – Até nos vermos de novo.

“Não sabia que era uma ameaça.”

“Zúri...” 

A mãe se ajoelhou na frente da mulher. Zúri mostrou-lhe os dentes, então olhou surpresa para amina, tentando entender por que ela não tinha obedecido ao seu comando.

Era tão simples quanto era triste. Amina havia deixado zuri como protetora de imani, da mesma forma como nala fizera com ela, tantos anos antes. Infelizmente, nenhuma conseguiu resguardar a protegida dos perigos do mundo.

“Você me abandonou.”

“Nanan me disse que te contou o que sabia. Agora é a minha vez, se estiver disposta a ouvir.”

Zuri parecia estar debatendo consigo mesma, mas, para a sorte de nala, era curiosa desde menina.

“Seja breve.”

“Como nanan já te explicou, eu usei as conchas para prever o meu futuro. O que eu vi foi...” Nala fechou os olhos. Amina presa em uma jaula para o resto da vida, seu próprio corpo sem vida, zúri sozinha, os pais mortos. “Eu não podia deixar que aquilo acontecesse. João era um idiota, mas acho que, mesmo se fosse um homem bom eu seria incapaz de amá-lo. Você e seu pai eram tudo para mim.”

“Meu pai?”

“Hamu juma. Ele morreu antes de virmos para o Brasil”

“Como ele era?” Zúri se inclinou para a frente, fazendo uma careta de dor. Assim que a situação estivesse controlada, precisavam levá-la para um hospital.

Nala respirou fundo, um sorriso triste se instalando em seu rosto. Seu hamu. Ela amava e odiava se lembrar dele.

“Gentil, às vezes até demais. Curioso, como você. Ele te amava mais do que tudo no mundo. Tentou lutar quando te tiraram amina. Acabou com um tiro no peito.”

“Eu não entendo, como você ficou tantos anos com o meu...” – Ela se interrompeu.    “Com o joão?”

“Eu precisava achar amina. Não podia deixar que a morte dele fosse em vão.”

E, ela não acrescentou, eu queria te dar um pai. A guerra de independência de Moçambique levou o pai de nala quando ela tinha oito anos, e uma parte triste e ingênua dela acreditou que poderia fazer com que a filha não tivesse que passar por isso. Temia que, ao dar-lhe joão, tivesse na verdade, feito a situação pior.

“E por que desistiu?”

“Eu tive um njozi mbaya. O espírito de hamu veio me alertar que, para que você se reunisse com amina, eu precisaria desaparecer da sua vida. Você precisava achá-la sozinha para que eu pudesse reencontrar vocês duas.”

Zúri a encarou por um longo momento, tentando fazer da situação algum sentido. Ela parecia confusa, mas não havia nada além de uma fria clareza na voz quando perguntou:

“Você não acha que eu teria preferido ter uma mãe?”

Samahani sana, binti, ela estava prestes a dizer, antes que um rugido a interrompesse.


Amanda Bosetto Cenci 

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