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IX - SOCORRO
Todos acordaram de sobressalto. O rugido ecoava na escuridão da noite. Uma a uma, luzes portáteis foram se acendendo, providenciando a visão para os curiosos. Na jaula, o leão de juba preta pulou para cima do leão de juba vermelha. As garras projetadas para fora, rasgavam-lhes as peles. A equipe ao lado de fora assistia preocupada enquanto os leões lutavam sem motivo aparente.
Amina desviou o olhar de zúri para o parceiro e notou, entre o lago e a terra, os corpinhos imóveis em poças escuras. O amargor em seu peito ampliava ainda mais ao perceber que não tinha sido só imani que morrera. Ela percorreu a jaula até os leõezinhos, sem se importar com a briga, e rugiu, daqueles fortes que saem do âmago. Seus filhotes, que carregara por cinco meses no ventre, tirados dela.
Os atiradores voltaram aos seus postos e ajeitaram a mira nos leões. Foram ordenados a disparar tranquilizantes para desviar a atenção deles e, assim, apartar a briga. O cinegrafista capturava tudo. Os dardos sendo disparados e os leões se afastando. A alfinetada só os havia irritado ainda mais. O de juba preta avançou novamente, cego pela perda de seus filhotes e pela sede de vingança. A câmera percorreu a jaula e focalizou os pequeninos. Amina roçava o focinho ansiosamente, arrancando uma última vez o cheiro de seus corpinhos. O odor de ferrugem, impregnando o focinho, alterava a sua visão. Enxergava vermelho e sentia preto. Ela virou para os machos e rosnou, lançando a pata com as garras expostas. O sangue pingou no chão terroso e um rugido gutural ecoou no zoo. O leão de juba vermelha se retraiu para o canto enquanto balançava a cabeça. A câmera mostrou, sem pudores, os enormes rasgos em seu rosto que atravessava o olho esquerdo, por onde escorria vermelho.
No outro canto, zúri se encolhia junto às leoas. Observava amina que começou a andar em círculos, rugindo para tudo o que visse. Estava fora de si. Os olhos opacos expressavam que não se importava mais se eram família. A câmera focou no leão de juba preta posicionado acima do vermelho, que levava a pata para o olho, o tapando. Estava arrependido. Ter o seu território infestado de outros leões talvez não fosse pior do que a dor que lhe ardia o olho, agora cego.
Amina avistou zúri. O uniforme ainda impregnando o corpo dela. A forma como agarrava os pedaços refletia que não estava pronta para ser uma delas. Uma leoa não deveria se prender ao malfeitor. Amina rugiu, traída, para zúri. Aquela não era a amiga que tinha, era uma humana que não conseguia deixar de ser humana. Dominada pela fúria, a leoa pulou para o canto onde estavam as fêmeas. O rosto enrugado e a boca aberta com dentes expostos, prontos para perfurar a pele fina da mulher. Os humanos tiraram a pequena imani dela, então não via o porquê de continuarem vivos.
As leoas rosnaram, prontas para contra-atacar. Amina foi jogada para o lado e pressionada contra o chão. A leoa que a segurava não tinha a intenção de machucar a irmã; queria apenas que se acalmasse. Com uma investida, amina arranhou o pescoço da leoa e desvencilhou-se dela. Saltou na direção de zúri, pronta para cravar-se no pescoço da mulher e terminar com a dor no peito. O sofrimento aumentou mais quando a outra leoa a puxou pelo rabo, derrubando amina. Essa, com as patas, começou a segurar o chão, arrastando-se mais para perto de zúri. Criavam-se forças opositoras, puxando para um lado e rastejando para outro. Amina percebeu que estava perto quando uma das garras deslizou rente à mulher. Tentou uma ou duas vezes, e na última conseguiu cravar as grossas unhas na carne de zúri.
O berro que saiu pelos lábios, os olhos arregalados e as lágrimas que ameaçavam escorrer não foram capturados pela câmera, que, por descuido do cinegrafista, havia esquecido a bateria reserva dentro do carro. As apostas online estouraram. O dinheiro apostado de que ninguém sairia vivo da jaula aumentava a cada segundo, chegando a milhões. Nanan khay precisou ser segurado pelo psiquiatra e por policiais para não entrar na jaula. Estava desesperado, gritando incoerências. Os socorristas já estavam em posição para quando as fêmeas fossem contidas e eles pudessem arrastar zúri para fora.
As leoas conseguiram forçar amina para o outro lado da jaula, que, impaciente, voltou a andar em círculos. Zúri apertava com força a panturrilha, tentando, aflita, parar o sangramento. Sentia que precisava sair dali, pelo menos até amina se acalmar da perda recente. Não se sentia mais bem-vinda naquele momento. Sob o olhar da leoa, começou a se arrastar para o outro lado. A cada força que fazia, a visão anuviava-se e as pálpebras pesavam. Conseguiu, com grande esforço, se esgueirar para dentro do cambiamento de segurança.
O dono do zoo estava com as mãos na cabeça enquanto observava todas as futuras manchetes passando por seus olhos. O prejuízo que tudo resultaria ecoando em números pelos ouvidos. Questionava-se como o zoo ficaria se os felinos, uma das atrações principais, matassem uns aos outros. Quem passava por perto acreditava que ele estava endoidecido. Falava sozinho e chutava o chão de repente. Os policiais o fizeram sentar ao lado do nanan khay (clinicamente instável, mas contido) e de uma mulher desconhecida ao lado da repórter. Nenhum deles parecia notar os arredores, seus pensamentos obstruindo qualquer fresta do mundo à volta. Se notassem, teriam percebido que, com toda a agitação na jaula dos leões, os outros animais estavam agitados.
Crocitadas, grunhidos, grasnadas, bramidos, o zoológico inteiro se juntava para expandir a aura lúgubre da noite. Toda a comoção não fizera bem aos bichos. Estavam alterados de maneira que nem os veterinários conseguiam explicar. Acreditavam que resultou dos rugidos, depois do cheiro de sangue; eram muitas versões descartadas ou corrigidas. Baques fortes começaram por todo o zoo. O som metálico ecoando em diversas direções. O pessoal estavam recuando. Não tinham mais iluminação reserva para investigar o que estava ocorrendo e muitos não queriam averiguar.
As batidas continuaram em sincronia com os rugidos da amina. Um mais forte que o outro, reverberando na escuridão. Dois policiais, ordenados a ver o que estava acontecendo do outro lado do zoo, foram em uma das viaturas. O carro andava devagar para não atingir civis ou qualquer objeto no caminho. Todos observaram atentamente quando fizeram a curva e desapareceram dentro da escuridão. O som dos pneus na terra como aviso de que continuavam avançando. As pancadas tornaram-se mais agressivas, precisando ser abafadas com as mãos nos ouvidos. Não se ouvia nada além da brutalidade com que os animais pareciam emitir os próprios sons.
E de repente, tudo cessou. Mas a buzina era frenética. Talvez estivesse sendo soada há vários minutos, ninguém sabia. Estavam todos parados, passando por suas mentes, talvez, que o primeiro a se movimentar seria o encarregado de ir até a viatura. Passou-se muito tempo no silêncio absoluto, vezes sendo interrompido por uma coruja no alto de uma árvore, alheia a tudo. Não muito, ouviram passos rápidos que se misturavam a trotes e galopes, chiados e caminhadas. Naquele momento entenderam, tudo estava escancarado. As jaulas, abertas.
Eduarda Ely
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