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Conforme os animais avançavam sem rumo aparente, as pessoas tentavam fugir, mas era ridículo ver que não conseguiam ir longe sem serem atingidas. Algumas se mantiveram por mais tempo correndo e desviando, até sentirem um baque vindo de outro lado. Patas, chifres, cabeças duras, o que quer que fosse, chegavam com tudo direto em suas costelas. As que sequer pensavam em subir em algum carrinho de pipoca ou de algodão-doce não conseguiam nem chegar ao destino sem verem esses sendo esmagados por cascos e garras raivosas. Algumas poucas, mais atléticas, que tentaram subir em árvores, eram prontamente empurradas pelos chimpanzés. Sempre tidos como os animais racionais, não conseguiam fazer nada direito e se comportavam como insetos perdidos em uma situação de urgência.
Os atiradores pegaram as armas e as posicionaram em direção aos animais que estivessem mais perto, mas não passou disso. Além de serem nocauteados pelos quadrúpedes fortes, hipopótamos ou rinocerontes, foram roubados pelos macacos, que saíam correndo com as armas e as lançavam longe. O veterinário levou as mãos à cabeça, começando a ofegar de desespero e a dar passos hesitantes. Seu assistente, desviando de um búfalo que vinha raivoso em sua direção, acabou derrubando o colega e caindo por cima.
Em uma conclusão lógica de suas profissões, os policiais viram que o ideal a fazer, e provavelmente a única opção que tinham, era evacuar as pessoas de dentro do zoológico de vez, isso sem deixar os animais saírem junto. Seria um desafio, pois eles estavam completamente fora de si e era impossível contar com os tranquilizantes. Os policiais da viatura a abandonaram e foram correndo até o foco do pandemônio.
Para toda direção que se olhasse, havia um animal diferente, com o focinho franzido ou completamente desinteressado quanto ao entorno. A repórter carine, o psicólogo e o cinegrafista ainda estavam parados, mas não sabiam o porquê. Carine esticou o pescoço e conseguiu ver alguns policiais balançando os braços acima da cabeça, no que não pareciam ser ordens, mas aparentemente eram se acompanhadas dos apitos. Seis socorristas, cada dupla com uma maca, foram escoltados por mais policiais que chegaram de fora do zoo, para recolherem as pessoas feridas. Alguns animais passavam por elas e as cheiravam, como se para ver se estavam abatidas mesmo ou só fazendo drama.
“Não, eu não posso sair daqui!”, gritou o dono do zoo, empurrando quem se pusesse em seu caminho, sem sucesso. Dois dos policiais lhe pegaram, cada um de um lado, e o forçaram a ir com o fluxo. “Me soltem! Não vou deixar meu zoológico!”
“A coisa está feia, precisamos sair daqui”, disse o psiquiatra, ainda sem andar.
“Cadê aquele velho que tava aqui há pouco tempo?” murmurou o cinegrafista, mais preocupado tentando dar um jeito em sua câmera.
Nesse momento, a repórter se lembrou da mulher misteriosa que estava com ela, que jurou ser nala, mas notou que também não estava mais ali. Ficou ainda mais certa de ter sido uma alucinação, pois nem sequer sabia se a zona que acabara de se instaurar era real ou não.
Parecendo finalmente ter saído de um transe, o psiquiatra foi dar um passo à frente, mas foi surpreendido por um rugido baixo. Carine e o cinegrafista também acordaram do que quer que tenha os acometido, e viram o leão de juba preta que lhes barrava o caminho, andando de um lado para o outro. A repórter apenas colocou um pé para o lado, mas o leão também percebeu e rosnou. O que os impedia de avançar, nesse momento, era o medo. Respirando com desespero, ela começou a gritar para chamar a atenção dos policiais. O cinegrafista e o psiquiatra fizeram o mesmo, já que o leão aparentou não se importar. Mas sua indiferença tinha um motivo. Pareceu que, nesse momento, como se em uma combinação silenciosa com o felino, os animais fizeram sons ainda mais altos, impedindo que qualquer autoridade voltasse para resgatar os três.
Zúri estava acariciando o grande rosto de uma das leoas, enquanto a outra lambia sua panturrilha. As duas listras rubras e fundas já não escorriam, brilhavam por conta da saliva. Depois de alguns segundos, o leão de juba vermelha saltou para fora da jaula. Ele lançou um olhar ameaçador para os três cercados pelo leão de juba preta e saiu correndo em direção aos outros animais, rugindo. Amina, perto do lago, empurrou seus filhotes com a cabeça, deixando os três corpinhos enfileirados. Ela os lambia como a outra leoa fazia no ferimento de zúri, ambas nesse ritual de cura universal dos felinos. Uma o fazia com certeza e segurança, a outra com desespero.
Enquanto os policiais guiavam as pessoas à entrada do zoo, perceberam que a agressividade doentia dos animais havia passado. Não tão sem rumo assim, eles permaneciam andando junto do grupo de bípedes, os espremendo e forçando a continuarem. Mesmo as pessoas que mancavam eram empurradas para frente por algum focinho. Aves de várias espécies voavam circulando suas cabeças. Com os animais diminuindo sua coletividade de sons, já era possível ouvir os gritos das pessoas do lado de fora, todo o pessoal que protestava por alguma causa, além dos curiosos. Alguns crífalos bufaram e empurraram com mais força, como se irritados pela algazarra que aqueles animais racionais causavam.
O dono do zoo andava respirando fortemente, com o cenho franzido. Ao ouvir que estavam se aproximando da entrada, rangeu os dentes e se virou novamente, tentando voltar a todo custo. A zebra atrás de si zurrou, empinando e batendo os cascos em seu peito. Ele grunhiu de dor, levando uma mão ao local atingido e dando um tapa no focinho do animal com a outra. Mal voltou dois passos, e um rugido ecoou. O leão de juba vermelha estava chegando, e usando do caminho que os outros animais se afastaram para abrir, parou há alguns metros do dono do zoo e pulou com as garras jogadas em sua direção. O homem, que caiu no chão na hora, foi levantado pelos policiais às pressas e praticamente arrastado. Já estava pingando suor, e os rasgos feitos em sua camisa revelavam sua pele que sangrava. O leão, nesse momento, continuou andando, acompanhando o ritmo dos outros, o olhar fixo no dono. O dono tentava apertar os olhos e abrir de novo para melhorar a visão, mas ela estava cada vez mais turva. Só o que permanecia claro era o olhar escaldante do leão sobre si.
Os defensores da causa animal e os dos direitos humanos olharam boquiabertos para a cena que vinha. Muitos imediatamente pegaram os celulares para registrar aquela comitiva peculiar que se aproximava, uma vez que os noticiários estavam parados, sem acesso a mais informações. Os vídeos e fotos daquele momento, pessoas sendo escoltadas pelos animais recém-saídos das jaulas e um homem ofegante sendo arrastado pelos braços começaram a viralizar nas redes logo depois de postados.
As pessoas faziam ainda mais barulho que os animais do zoo. Os defensores da causa animal reforçavam, com entusiasmo, a empatia que os seres, aparentemente selvagens, estavam demonstrando. Os outros veterinários olhavam sem reação, enquanto seus colegas de trabalho se juntavam a eles, ainda meio mancando. Uma das defensoras dos direitos humanos filmava e fazia comentários, se perguntando onde estaria a mulher da jaula dos leões. Ao avistar apenas o leão de juba vermelha, deu zoom e, engolindo em seco, lamentou a provável morte dos que dividiam espaço com ele. No meio digital, os que apostaram que todos morreriam naquela luta felina da jaula reclamavam sua recompensa, alegando que um leão de juba vermelha restante não fazia diferença.
Ninguém comentou sobre a repórter, o psiquiatra ou o cinegrafista, como se eles nunca tivessem existido.
“O meu zoológico... O meu dinheiro....” balbuciou o dono do zoo. Alguns socorristas se aproximaram para, com a ajuda dos policiais, levantarem o homem do chão. Quando o fizeram se sentar em uma maca, um grito estridente de macaco-prego causou dor nos ouvidos de todos, seguido por uma pistola de tranquilizante que voou direto na cabeça do homem. Ele tombou para trás, os olhos petrificados, a boca entreaberta e uma bola de sangue se formando na testa.
O zoo, como há muito não se encontrava novamente, estava deserto. Os únicos sons eram os rosnados ocasionais das feras africanas, zúri voltando a cantar mais baixo do que nunca, a voz trêmula, e o eco da recente e surpreendentemente rápida confusão. Os três barrados pelo leão de juba preta se detinham com os olhos bem abertos para a trilha que todos tinham seguido. Seus corações se apertaram. Ninguém parecia que ia vir para buscá-los. O psiquiatra comprimiu os lábios. O cinegrafista apertou sua câmera contra o corpo, como se aquele objeto há tanto tempo consigo fosse o último resquício que teria do mundo lá fora. Carine fechou os olhos e uma única lágrima escorreu em sua bochecha. O quase imperceptível canto de zúri, pela primeira vez, parecia um acalanto para ela.
“Asim! Asim!” alguém gritou, uma voz tão alta e límpida que sequer parecia humana. Os três, o leão de juba preta e as que permaneciam dentro da jaula viraram as cabeças, ao mesmo tempo, para a direção do som.
Com um salto, o leão de juba preta recuou para o meio da trilha e abaixou a cabeça sobre as patas. A repórter, o psiquiatra e a cinegrafista, finalmente livres para andarem para frente, viram, do outro lado da trilha, nanan khay voltando, de braço dado com nala. Carine sentiu uma emoção inexplicável, até desconcertante, de certa forma.
“Pumzika sasa, asim” nala entoou com sua voz melodiosa, estendendo a mão para o leão de juba preta. Seu nome, então, era asim, “aquele que protege”. Com esse comando, ele se deitou no chão.
Antes que os três pudessem reagir, o leão de juba vermelha chegou, rosnando e balançando a cabeça. Os outros animais, mesmo que ainda distantes, também estavam voltando. As leoas, com exceção de amina e da humana zúri, se encaminhavam para a saída da jaula. Paralisados de novo pelo medo, além de outros sentimentos que não sabiam descrever, a repórter, o psiquiatra e o cinegrafista revezavam os olhares entre nanan khay e nala. O olhar dela, tão poderoso quanto as cordas vocais, parecia dizer: “Agora, o assunto é com vocês.”
Dionysio Ofra
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