Destaques
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
XII - O PORTAL
A lua estava no ápice do ciclo. Era a lua vermelha de sangue, um acontecimento astrológico muito raro, somente visto no céu a cada cem anos. Asin, o leão de juba preta, não conseguia tirar os olhos da lua desde que zúri entrou na jaula. Mas, naquele instante, a enorme figura redonda que se projetava no preto do céu fazia com que seus instintos se aflorassem, como se não pudesse mais se conter nas grades e muros daquele zoológico. A lua o fazia querer rugir, mais alto que tudo, mais alto que a dor, mais alto que o desespero. Quando os animais se soltaram das jaulas e as batidas começaram a ecoar em todo o ambiente, cada vez mais fortes e compassadas, as batidas que se sincronizavam a cada instante com os rugidos de amina, foi que o leão sentiu que a percussão ritmava junto com as batidas do próprio coração.
E então soltou o rugido mais profundo de sua alma.
Nala parou de falar e virou o rosto em direção a asin. Mirou a lua, cuja cor branca se misturava ao rubro e lhe dava uma nuance rosada. Então olhou para nanan khay e disse:
“Está na hora.”
No mesmo instante, nala virou-se para zúri. As íris dos olhos se tornaram vermelhas e as pupilas se estreitaram, como as de uma felina. Mas seu olhar era puro afeto. Devagar e de maneira prudente, estendeu a palma da mão até encostar na mão da filha. Estendeu a outra mão para nanan khay, que já estava com as palmas estendidas para o céu, os olhos fechados. Suas mãos também se encostaram, sem que nada fosse dito.
E zúri conseguiu enxergar tudo.
Se viu na savana, junto de amina, junto dos leões. Pôde sentir a natureza correndo em suas veias, algo tão natural como respirar. Sabia se comunicar por pensamento com seu povo, a linhagem real suaíli, que considerava os leões como iguais. Seres mágicos, assim como eles. Em uma fração de segundo, sentiu seu corpo todo brilhar como ouro. Seus olhos se tornaram vermelhos e nítidos. Conseguia entender que era rainha, assim como amina. As grandes rainhas guerreiras sacerdotisas. Pressentia a certeza de que suas pernas continham toda a força e velocidade dos felinos. A cauda da tatuagem queimava na pele. Não havia mais o talho fundo na panturrilha. Em um ímpeto, levantou-se. Seu corpo respondia aos rugidos como se fosse a canção de uma vida eterna. Com os olhos cheios de lágrimas, olhou para nala, que estava à sua frente.
“Mama!”
Nala correspondia ao olhar e à emoção.
“Mama yangu ni ufalme wangu wa upendo.”
Estendeu as mãos, encostando as palmas com as de nala e nanan khay. E então os três começaram a cantar.
“Niko hivi nilivyo kwa sababu sisi sote ni wetu.”
– sou quem sou porque somos todos nós.
As duas leoas, que estavam junto ao leão asin, começaram a rugir em resposta, como se também estivessem cantando. Os três animais se posicionaram um de frente para o outro, como se estivessem em forma de triângulo. Seus rugidos eram cada vez mais potentes.
A repórter, o cinegrafista e o psiquiatra agora estavam em transe. Antes de tudo acontecer, buscavam uma maneira de escapar das garras dos leões, que caminhavam em volta deles, em um cortejo ameaçador. Quando as batidas se tornaram ensurdecedoras e o leão asin rugiu alto, o trio automaticamente respondeu ao rugido, como se fosse um comando. Seus olhos estavam brancos. Os três viraram-se um para o outro, como se estivessem em um círculo. Encostaram as palmas de suas mãos.
No meio do grande círculo formado pelos três grupos, havia acima a grande lua vermelha e abaixo, o leão de juba vermelha. Amina também estava dentro do círculo, a uns cinco passos dele. Fixada na frente de nala, zúri e nanan, ela encarava o leão assassino. Na frente de amina, os três filhotes inertes. Foi quando a leoa começou a sentir que os pequenos leõezinhos se mexiam. Uma névoa cor de ouro os envolvia.
Nala, zúri e nanan cantavam cada vez mais alto. As feras vociferavam rugidos.
A frequência sonora se misturou à névoa dourada se movimentando em círculo na área entre o grupo dos leões, dos suaíli e do trio formado pelos simplórios humanos.
Nala decretou:
“Maisha kwa ajili ya maisha ambayo yalichukuliwa.”
– uma vida pelas vidas que foram ceifadas.
Entre as mãos dos suaíli, uma eletricidade foi se formando. A névoa que surgia em torno deles deu lugar a uma luz muito brilhante, que foi se tornando um raio luminoso. O trio cantava cada vez mais alto. Nanan no meio, zúri e nala em cada uma das pontas. As palmas das mãos unidas. E então os três gritaram:
“Uchawi!”
E o raio de luz que se originava das mãos do trio suaíli foi se projetando no sentido de amina, que na mesma hora estrondeou o bramido mais pungente que se ouviu. O feixe luminoso envolveu a leoa por completo, atravessando seu corpo e alcançando seus filhotes, que agora se plasmavam.
O leão de juba vermelha, o único que não rugia, se viu arrastado pelo feixe na direção dos três seres que se moldavam na névoa dourada. Quando o corpo do felino se juntou a eles, a névoa se transformou em uma massa vermelha e viva, que se mexia de maneira caótica e desordenada.
Um retumbante estouro se viu no céu.
E um enorme leão de juba dourada apareceu voando diante das testemunhas daquele milagre. Era um ser que continha, dentro de si, feminino e masculino, macho e fêmea, profano e sagrado, mágico e mundano. Seu nome era Imani, o ser intocado. O tempo e o espaço não importava na magia suaíli, se existisse o amor. A noite se transformou em dia e se viram rodeados pela vegetação da savana, que agora lhes parecia algo tão natural quanto viver.
As frequências sonoras se misturaram às frequências quânticas, provocando um estremecimento, um tremor. As batidas cessaram, o canto se emudeceu, os rugidos pausaram.
E então um grande clarão se espalhou por todas as dimensões, cegando a todos.
Bianca Rosa
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos

Comentários
Postar um comentário